Quantas vezes já fomos em consultórios médicos com as mais distintas queixas clínicas e saímos com a sensação de não termos sido atendidos adequadamente, ou até mesmo, de  não termos falado o que realmente estava nos causando sofrimento?

Extremamente comum, mas frequentemente negligenciado, o cuidado à saúde integral, tão sabiamente definido pela Assistente Social, Enfermeira e Médica Paliativista Cecily Saunders em amplas dimensões que abraçam âmbito social, psíquico, espiritual, além do físico, é cada dia mais essencial no cuidado de longo prazo de pessoas em adoecimento.

A Medicina tradicional focada na cura de doenças tem passado por mudanças que estão ampliando o olhar para o cuidado humanizado.

A formalidade de consultas com computadores e mesas separando o profissional médico e pacientes tem sido gradativamente substituída pelo contato olho-a-olho, com valorização da escuta ativa e compreensão de como cada pessoa constrói seu processo de saúde e doença.

Esse resgate é essencial em um mundo em que a informação e a “desinformação” são tão acessíveis a todos, o que gera um risco para a autonomia, uma vez que informações falsas com o propósito de confundir e induzir ao erro geram um autocuidado não coerente com as reais necessidades da pessoa.

A possibilidade do estabelecimento de um diálogo claro e sem receios com o profissional médico é essencial para que todas as angústias e percepções possam ser trazidas e elucidadas com clara resolução.

Estamos em evidente processo de envelhecimento.

Estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que em 2050, cerca de 20% da população brasileira será constituída de pessoas com mais de 65 anos. Isso representa uma inegável conquista e ao mesmo tempo um enorme desafio.

Como estamos entrando nessa etapa de maior fragilidade?

As doenças crônicas representam um grande problema de saúde pública e o pensar no processo de envelhecimento sem cogitar ser portador de alguma patologia ou usuário de alguma medicação apresenta-se enraizado culturalmente.

Enxergamos nosso próprio futuro como algo sombrio, em que precisaremos de auxílio para cuidados básicos como para alimentação, locomoção e até higiene pessoal. Esta visão parece tão distante de se efetivar em nossas vidas que acabamos negligenciando o cuidado com a saúde no momento atual, e esquecemos que nossa qualidade de vida futura depende do que escolhemos e fazemos hoje.      Precisamos urgentemente compreender como nosso processo do adoecer está sendo construído, estamos tomando decisões com base em informações ou “desinformações”?                 Nesse contexto se atentar aos detalhes é primordial.

Os fatores que nos levam a um processo de adoecimento com grande dependência de cuidados são muito sutis: é a praticidade de fazer um lanche com alto teor de gordura e sal no horário do almoço, pois temos muita demanda no trabalho para separar 60 minutos para a refeição, é o prazeroso primeiro cigarro da manhã que nos leva a fumar alguns a mais ao longo do dia, é a falta de tempo ou dinheiro para fazermos um exercício na “academia” esquecendo que o parque está sempre aberto e é gratuito, é aquela dor que começou a pouco tempo mas “sempre tenho um remédio na bolsa para esses casos e não deve ser nada grave”, é aquele exame para controle que eu deveria ter feito há 1 ano mas “agora não tenho tempo e não acho tão importante assim”, é aquele estresse tão intenso no trabalho que “preciso me sujeitar e mesmo odiando ou desejando sair me mantenho forte pois tenho responsabilidades financeiras e minha saúde mental não é tão importante assim”.

Esses são discursos que escuto diariamente na prática clínica e é dessa forma que adoecemos, sutilmente, dia após dia, nos sentimos doentes mesmo não tendo doença física. Nos submetemos ao nosso limite para então constatar que precisamos parar, dormir algumas horas a mais por noite, comer um pouco melhor, diminuir o ritmo de trabalho, ficar uma manhã em casa para ouvir o silêncio enquanto nossas mentes e almas se aquietam da terrível ansiedade diária.

Até que ponto tudo isso compensa? Até que ponto tudo isso permitirá que eu desenvolva uma boa qualidade de vida na terceira idade? A resposta é muito clara para os profissionais em saúde e representa nosso maior desafio na busca pelo compartilhamento de um novo olhar para a qualidade de vida em saúde, verdadeiramente plena em todos os sentidos.

Não busque cuidados médicos apenas quando você adoecer. Não espere tanto tempo para realizar o seu autocuidado informado.

Procure um profissional da área da saúde que você possa confiar, capacitado, que possa lhe garantir bom conhecimento técnico para lhe prestar os cuidados, mas acima de tudo, bons ouvidos para lhe escutar e não apenas ouvir, e que possa assegurar uma caminhada belíssima de saúde e qualidade de vida.

 

“Cuidar do corpo e da saúde não tem nada a ver com parecer bem, mas sim como estar bem para você e com você”.

 

Dra. Estela Galvão Alves

Médica de Família e Comunidade

Especialista em Oncologia e Cuidados Paliativos

Faça um comentário